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CLARE ANDREWS E A PINTURA;
ABANDONO E LUMINOSIDADE.

Antes e acima de tudo, o que se encontra na obra de Clare Andrews é pintura. Uma pintura de oposições, em que as extensões das cores, metálicas e chapadas "contracenam" com as fugidias personagens realistas, quase "cartoon", quase fotografia. Imperturbável diante dos extremos, a grande personagem do conjunto é a pintura! Grandes pinturas de vocação discursiva, impressionando pelas dimensões, qualidade pictórica e senso de visão treinado para estender-se apenas ao que realmente interessa, no melhor dos momentos e das coisas captadas.

A figuração também é recurso pictórico. Sua decodificação é rigorosamente aberta e o discurso da obra é pessoal do espectador. A artista não se pronuncia, se distancia das emoções. Não formula roteiros, nem narrativas.

Exercício e solidão. A pintura é solitária e é árduo o exercício da colocação da tinta na tela. Da labuta cotidiana, resulta uma obra de qualidade impecável e de acabamento primoroso.

E há a cor. Em Clare Andrews, a cor é de rara especialidade.

Brilha, vibra, acompanha e completa a grandiosidade das dimensões das telas. Quadros de dimensões cenográficas e um quê de filme antigo. E o grande campo dourado funciona como contraponto de luz à agilidade Flamenca de cena misteriosa. A cor imprime o estranhamento do "duplo", o fascínio do mistério e a eloquência silenciosa da busca e da chispa criadora.

A energia exercida pela cor, pelo brilho e o tamanho monumental, na obra de Clare Andrews, induz a concentração e o fascínio do olhar por encantamento luminoso. E a convicção de que se esta diante do especial, do singular e do original.

João Henrique do Amaral
Diretor, Museu de Arte Contemporanea de Curitiba, Brazil

Do catálogo de 'Silent Pictures'
Celma Albuquerque Arte Contemporanea
Belo Horizonte, Brasil


 
 



PINTURA NÃO SÓ PARA SER VISTA.
MAS PARA SER SENTIDA.

ou
DE COMO PRESERVAR A HISTÓRIA ATRAVÉS DA PINTURA.
ou ainda
“UMA DAS VANTAGENS DE SER UMA ARTISTA MULHER:
VOCE VERÁ QUE, NÃO IMPORTA QUE TIPO DE ART FAÇA,
SERÁ SEMPRE TACHADA DE FEMININA.

Essa ultima afirmação está num dos trabalhos de 1988 das Guerrilla Girls.
Mas, para falar de pintura, que é o caso aqui, ainda perguntam se pintar - essa forma de Arte que diziam ter morrido - tem relevância nos dias de hoje. É claro que sim. Quem pinta já sobreviveu a tantas e várias outras formas de arte. Efêmeras.
Disposable. Ou não.
Um tipo de resistência? Paixão?

Pintura é como se fosse a própria sobrevivência da História.
Pegue um livro de arte e veja uma reprodução. De Ticiano, por exemplo. Perfeita, inteira, intacta, contando uma história. E feita há quase quinhentos anos.

E agora vem mais uma nova "re-descoberta" da pintura, como meio e processo criativo. Dessa vez, resultado da própria efervescência da era digital, e até conseqüência disto, pois o processo digital/videoclipado/publicitário/fast/renovável, de super-fast-uso é também intrinsecamente de alta e rápida substituição. Enquanto a Pintura, em sua forma, conteúdo e poder de contemplação, sobrevive, reconfirmando o seu espaço.
Esse reconhecimento hoje é oportuno para quem pinta. E para quem gosta de arte.

Clare Andrews pinta.

Seus instrumentos, pincéis, tela, tinta. E cabeça. O resultado, quadros e títulos que reunidos formam uma verdadeira eternidade precária, essa - Precarious Eternity - que mostra nesta exposição.

Clare Andrews poderia ser simplesmente chamada de "Pintora de Quadros". Mas pintando, recupera elementos da história da arte e do papel repressivo da história da mulher na história da arte. Opressivas. Oprimidas. O quê?

Reescrevendo a exploração da mulher como fetiches, símbolos sexuais, safados, e que nada de feminino possuem, pois machista sempre foi esse universo, precário e eterno, “re-surgem” telas grandes e aflitas, por trás da inocente simplicidade do dia-a-dia.

Lembro aqui de outra obra das Guerrilla Girls, que dizia que "menos do que 5% dos artistas que são mostrados em museus são mulheres, mas 85% dos nus são de mulheres".
Pois é essa "denúncia artística" que continua aqui, nessas telas.

Com elementos visuais que vão desde obras famosas, de mestres famosos, a fotos pornográficas de fotógrafos enrustidos, vitorianos, compostos com elementos de lembrança pop, como tulipa, salada de fruta, montanha etc. ou com imagens espelhadas, Clare compõe um universo de extrema sensibilidade poética, mas ao mesmo tempo, com forte teor plástico. Quase agressivo.
São imagens que, à primeira vista, não parecem ter nada em comum, mas que, ao se agruparem em dípticos ou trípticos, ou através das mesmas imagens repetidas e refletidas, formam uma nova realidade visual.
O que era óbvio e comum, em separado, forma o inusitado e o incomum ao se agruparem e ao se espelharem. Tornam-se imagens que constrangem, corroem, incomodam.

O resultado: telas feitas não só para serem vistas. Mas para serem sentidas.

E se isso é arte feminina, eu também sou. Eu, e a torcida do Flamengo.

Antonio Claudio Carvalho

Do catálogo de 'Precarious Eternity'
Museu de Arte Metropolitana de Curitiba, Brasil